Pra quem teve problemas em organizar as ideias:
Eu acredito que a grande sacada do filme é justamente o fato de ele transformar ideias simples em situações complexas (ou vice-versa). Como o marco e o laf disseram, o filme não possui "nada de novo"; exemplo clássico e não muito longe é, obviamente, Paprika. Ao "hollywoodizar" esses temas, no entanto, o Nolan acaba por criar um filme raro e peculiar. E eu digo "hollywoodizar" no melhor sentido possível. Explico:
Pode-se dizer que virou modinha para grande parte dos espectadores demonizar Hollywood, e, sinceramente, dá para entender tal comportamento (Michael Bay, anyone?). O que essas pessoas esquecem é que as superproduções americanas fazem parte de uma indústria, que, como qualquer outra, procura o lucro. Nessa procura, obviamente, teremos coisas boas e ruins. Hollywood não é, portanto, inerentemente tóxica; garanto-lhes que alguns dos piores e mais pretensiosos filmes que já vi vieram de Park City e do Dogma 95.
Enrolei e enrolei, mas acredito que grande parte do sucesso do filme se deve a isso: uma superprodução americana que não se reduz ao menor denominador comum. Enfim, algo inesperado para a maioria das pessoas.
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Sobre o filme em si, acredito que a força de Nolan reside em sua capacidade de manipular o enredo, envolvendo o espectador. Para isso, utiliza desde truques narrativos (já vistos em Amnésia, seu primeiro filme de sucesso - assistam!), como o primeiro sonho de Ariadne - de fato, toda a personagem Ariadne, um grande exemplo de audience surrogate -, até sua criatividade visual. The Dark Knight já mostrou como ele consegue arquitetar sequencias de ação como poucos, e isso só ficou mais evidente em A Origem.
Com essa atmosfera envolvente, pouco espaço sobra na cabeça de quem vê o filme para questionamentos sobre a coerência da trama. Sim, há diversas incongruências não explicadas, sobre as quais, na melhor das hipóteses, só existem teorias (vejam o FAQ do IMDb). Mas, no que diz respeito ao produto final, pouco importa. Nolan usualmente cria filmes bem "justos"; se eu fosse resumir A Origem, diria que é uma obra que, de tão coesa, não exige tanta coerência (se é que dá pra entender) - IMHO, claro.
E, convenientemente, tal característica acaba por confluir com o tema principal - a interface sonho/mundo real. Aqui que existe a maior semelhança entre A Origem e Paprika. Acredito que ambos procuram expressar a mesma ideia, que é a incapacidade absoluta (teoricamente) de, em um dado momento, distinguir sonho de realidade. O que diferencia as obras é o caminho que elas levam para tal "mensagem final". Satoshi Kon, como o jef muito bem disse, é mais adepto do surrealismo, das implicações sociais de manipular sonhos, com uma crítica pertinente ao estado atual da sociedade (especialmente a japonesa). O fato de trabalhar com animação também favorece a construção de algumas situações mais específicas.
Nolan, por outro lado, é muito mais character-driven - Cobb é a razão de ser da história, pois sem ele o filme nada mais seria que um heist movie à la Onze Homens e Um Segredo. Há um destaque muito maior para os conflitos internos do personagem. Seu foco em cenas de ação também representa uma das características mais próprias a um live action, especialmente as censa em câmera lenta. O final aberto, inconclusivo, suscita dicussões e a elaboração de resoluções próprias de cada espectador - o que, para mim, é um dos grandes efeitos do filme. Cada um tem sua imagem própria do que é A Origem.
Para mim, um ótimo filme. |